sexta-feira, 15 de junho de 2007

Boletim 4: Nicarágua



Boletim 4: Nicarágua




Granada, 06 de Março de 2007
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Seguimos com o almanaque mambembe centro-americano 4ª edição:
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O calor em Choluteca, ainda em Honduras, perto da fronteira com a Nicarágua, era insoportável já as 7 da manha, quando fui pegar o ônibus que me levaria até a fronteira. Quando é dia de cruzar fronteira eu penteio o cabelo e visto minha melhor camiseta pra fazer uma moral com os guardinhas da imigração na aduana. Bom, a fronteira que eu ia cruzar não é a mais utilizada entre Honduras e Nicarágua, mas devido ao meu roteiro, era a melhor opção e já entraria perto da primeira cidade nicaraguense que ia estar. O ônibus que peguei em Choluteca me deixou na ultima cidadezinha hondurenha antes da fronteira, um faroeste total, algumas casinhas de um lado, algumas casinhas do outro e depois você olha pra um lado é nada, olha pro outro lado é nada também. Ao descer do ônibus já cola um monte de cambistas assustadores de bigodinho fino, disputando o único estrangeiro que havia ali: Vas a cambiar plata conmigo muchacho??? uhhhh!
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Rubén Darío
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Troquei uma pequena quantia, o suficiente para chegar ate a próxima cidade na Nicarágua e daí o problema era cruzar a fronteira. Mas como pra tudo que você precisa sempre tem um trabalhador informal disposto a te acudir, você monta numa bicicletinha estilo chinesa e o carinha te leva até a imigração hondurenha, pra pegar o carimbo de saída, depois atravessa a ponte que separa os dois países, te leva até a imigração da Nicarágua pra carimbar a entrada e depois ainda te deixa no lugar que saem os ônibus, é serviço completo. Detalhe que no início o cara diz que vai cobrar só uma propininha pela pedalada, depois quando você ta no meio da ponte, sem ninguém, o cara começa a aumentar o preço já cobrando em dólares. Mas vocês sabem que uma boa conversa brasileira, um ronaldiño pra cá, um ronaldiño pra lá, tudo se ajeita, e a corrida saiu por uma propininha e mais um chaveirinho do Brasil que eu dei pra ele. O cara ficou todo contente e ainda disse: olha, quando precisar estaremos aqui hein! Portanto, se alguém for cruzar esta fronteira eu indico o Ariel, da bicicletinha azul ok?
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Crianças em León
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Estátua ao guerrilheiro sandinista
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Procedimentos aduaneiros fronteiriços finalizados, montei no school bus até a cidade de León, já na Nicarágua. Entre a fronteira e León, a estrada passa por uma região rural, planícies quentes com vulcões ao fundo. E no ônibus só tem caboclo, nego entra de chapelão e sem um dente na boca. Ao meu lado sentou um sinhôzinho de uns 75 anos que já veio me dando uma geral do país. Sempre é bom conversar com os mais velhos porque eles tem uma visão mais completa da história do país, o problema é entender o espanhol esdrúxulo devido à ausência de dentes nestes simpáticos senhores. Aproveitando o gancho, vamos à uma geralzinha no pais: A Nicarágua tem este nome devido a derivação feita pelos espanhóis a partir da tribo Nicarao, que habitava a maior parte do território. O país sempre foi marcado por grandes divisões ideológicas e conflitos, por isso, vi nos Nicas (apelido pelo qual eles mesmos se denominam) um povo aguerrido e comprometido com seus ideais. Esta divisão já começou na época colonial, quando as duas principais cidades sempre se mostraram antagônicas. A primeira delas é León, com perfil liberal, contestador, revolucionário, antro de intelectuais, poetas e estudantes. Rubén Darío, um dos mais influentes e importantes escritores latino-americanos e o orgulho nacional da Nicarágua, era de León. Já Granada, é uma cidade de perfil conservador, muita presença do clero, de passado aristocrático devido ao acúmulo de riquezas por sua localização estratégica às margens do lago da Nicarágua, onde havia fácil comunicação com o mar do caribe através do rio San Juan. Aliás, a região de Granada sempre foi muito visada porque as primeiras tentativas de construção de um canal que ligasse os dois oceanos foi feita através do rio San Juan e o Lago de Nicarágua, e Granada encontra-se justamente no meio desta região. Devido a estas diferenças e muitos conflitos, a capital foi transferida de León para Manágua, que fica justamente entre as duas cidades.
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Catedral de La Asunción - León
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Leão guarda a Catedral
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Mausoléu dos Mártires da Revolução Sandinista
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Já no início do século XX, chega ao poder, com o apoio dos EUA, o ditador Anastacio Somoza, que dominaria o país numa dinastia de quatro décadas. Na retaguarda liberal, Augusto Sandino liderava forças contra o domínio conjunto dos EUA e de Somoza. Foi quando em 1934, Somoza assassina Sandino numa armação. Ele o convida para jantar, como se fosse negociar um acordo de paz e após o jantar, Sandino é fuzilado pela guarda nacional de Somoza.
Mas Somoza morre num assassinato cinematografico em 1956, quando o poeta e jornalista Rigoberto López Pérez se disfarça de garçon para entrar num jantar da cúpula do governo em León, e manda o Somoza pro inferno no meio do jantar com vários tiros. Rigoberto é capturado, morto e vira herói nacional. Assume o poder o filho do Somoza, e continua a ditadura, com repressão mais forte. Surge a FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional), e o país entra em conflito pesado, sandinistas contra a guarda nacional Somozista, e com apoio popular a FSLN derruba Somoza em 1979. Depois, seguem-se anos de instabilidades, juntas provisórias de governo divididas entre moderados de Granada e radicais sandinistas, mas no fim assume o comando do país o sandinista Daniel Ortega. A partir daí, os EUA iniciam uma ofensiva de combate ao governo sandinista e começa a Guerra dos Contra, na qual os militares americanos usam parte do território hondurenho para poder invadir a Nicarágua. A guerra já se estendia até a metade dos anos 80 sem vencedores, quando o congresso americano então rejeita novo aporte militar pra continuar a guerra. Mesmo assim, o governo Reagan secretamente usa os fundos de vendas ilegais de armas ao Irã, para sustentar o exército americano. Dois anos depois o esquema é descoberto e a guerra termina em 1987, e os sandinistas seguem no poder até 1990, quando então são feitas novas eleições e ganha a moderada Violeta Chamorro. Depois, vários governos se alternam e os sandinistas não conseguem voltar ao poder, Ortega perde 3 eleições seguidas até que agora nas ultimas eleições consegue voltar ao poder e é o atual presidente, mas vi uma certa descrença nos nicas sobre o governo que acaba de começar.
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Sandino
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Casa onde viveu Rubén Darío
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Viajar por estas cidades é como reviver todo esse período de história. Em León vi os grandes murais com pinturas que representam as passagens da revolução, pude ir na casa onde viveu Rubén Darío, onde hoje há um museu sobre ele e na praça central a enorme catedral é guardada por duas estátua de leões.
No trajeto de Léon pra Granada, fui numa van tipo de cachorro quente e não tinha os famosos cobradores que fazem tudo, daí quem fica sentado mais próximo da porta é que coordena a entrada e saída. E era justamente eu que sentei ali e fui comandando o sobe e desce da viagem, abria a porta, dobrava o banquinho do corredor pro pessoal passar e ainda gritava "dále" pro motorista arrancar. Eu só não gritava o destino na porta porque também não estou prestando trabalhos voluntários para o sistema de transporte nicaraguense. Granada tem ruas estreitas, casas coloniais coloridas e seus habitantes são mais tranquilos e conservadores, ou seja, a rixa entre as duas cidades ainda continua. Detalhe que no albergue de León, fiz amizade com um uruguayo que está viajando de bicicleta, só que ele saiu do Uruguay há 3 anos!!! chegou aqui só no pedal e vai terminar no México, tá fraco esse ou não?
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Catedral de Granada
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Arquitetura colonial granadina (esq.) e vendedores de frutas (dir.)
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Palácio Episcopal e Catedral de Granada
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Em relação à música, a Nicarágua é um país bem mais musical que os anteriores (exceto Cuba), e tive a sorte de assistir um show do compositor mais representativo aqui, Carlos Mejía Godoy.
Na gastronomia, a pedida é o tradicional gallopinto, que nada mais é que arroz e feijão preparados já juntos, é diferente porque o arroz fica mais escuro e não tem o caldo do feijão (acompanha alguma carne e tortillas). Os nicas são sempre muito gente fina, gostam de falar sobre o país, adoram um debate político e também são muito alegres, embora a Nicarágua seja o segundo país mais pobre das Américas, ganhando só do Haiti.
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Tonel de rum "Flor de Caña" (esq.) e restaurante em Granada (dir.)
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Nativo em Granada
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Viva los nicas, adelante!
Até mais,
Márcio.-

Boletim 5: Costa Rica



Boletim 5: Costa Rica


San José, 11 de março de 2007
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Fiéis leitores,
Hoje chego ao quadragésimo oitavo dia de viagem e estou aqui na capital da Costa Rica, o penúltimo país da América Central. Seguindo então o rumo da expedição:
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Deixei a cidade de Granada, na Nicarágua, em direção à Costa Rica. Nos dias de cruzar fronteira, a batalha começa cedo, e às 5 da manhã eu já estava no lugar que saem os ônibus, assim, poderia chegar ainda de dia ao destino final. Em pouco tempo o ônibus já alcança a fronteira e então começa o tramite. Pra sair da Nicarágua tranquilo, mas a entrada na Costa Rica está muito fiscalizada, justamente porque muitos nicaraguenses estão entrando ilegalmente pra conseguir trabalho no país vizinho, já que este está em melhores condições. Porém, se às vezes a minha cara de gringo atrapalha, desta vez ajudou muito porque na hora de revistar as bagagens eu fico sempre ao lado de alguns outros mochileiros europeus e acabo saindo ileso e sendo liberado na mesma leva dos meus colegas vikings (o único que deixa um pouco de desconfiança e a diferença de altura), enquanto que os demais são revistados em todos os mínimos bolsinhos de malas e mochilas. Eu também nunca fico com o passaporte na mão nestas horas porque o do Brasil é o único verdinho, facilmente reconhecível, o que me potencializa pra fila do pente fino. Outra manha é dar um "buenos días" com sotaque bem tosco, pra não ter duvida que sou um viking anão.
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Costa Rica
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Trâmites aduaneiros feitos e carimbo de entrada na Costa Rica estampado no passaporte, assim mesmo foi preciso esperar muito pelos nicaraguenses que estavam sendo postos de cabeça pra baixo pra cair ate o último objeto que carregavam. Daí a viagem seguiu e no meio do caminho eu desci no meio da estrada, perto da cidade de Libéria, porque de lá ia trocar de ônibus. De Libéria peguei outro ônibus pra Tamarindo, na Península de Nicoya, costa do Pacífico, só por estradas de terra, poeirada forte dentro do busão e um calor absurdo.
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Tamarindo
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No entanto, a recompensa veio quando encontrei o endereço do albergue e, quando entro, encontro uma piscina coberta, um luxo inacreditável! o primeiro albergue que vejo provido de piscina. Era um verdadeiro Spa Low Budget for Backpackers, tudo que eu precisava pra recuperar o cansaço e as costas moídas pelos bancos dos ônibus escolares e vans de cachorro quente apertadas que me levam pra todos os cantos da Mesoamérica. No entanto, depois percebi que o lugar não era lá tudo isso. O quarto ficava ao fundo e o teto era daquelas telhas de amianto naquele estilo Brasilit sabem? e isso fazia o lugar virar uma estufa. A noite era quente, e durante o dia simplesmente não dava pra entrar no nobre aposento. Até as roupas esquentavam e pareciam que estavam recém passadas. Pelo menos a toalha seca rapidinho, evitando o cheiro canino que as mesma costumam exalar após o uso constante e impossibilidade de troca. Podia-se dizer que o albergue não era dotado só de piscina, mas também de sauna, só que no quarto mesmo.
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Tamarindo
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Tamarindo
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Tamarindo é um lugar bacana, mas tem um porém. A Costa Rica está atraindo muitos turistas e vários já estão vindo pra ficar, na maioria americanos. Isto está desvirtuando um pouco o país, tanto nos costumes como na paisagem. Alguns já chamam a cidade de Tamagringo. Várias vezes eu entrei em lugares e já vieram falando inglês comigo, não importando de onde eu fosse, sendo que estava num país que fala espanhol. Com os estrangeiros controlando o comércio e os serviços, raramente você tem contato com o povo local, o que é bastante negativo. Já existem também vários resorts, hotéis grandes e a construção está forte. Meu roteiro para a Costa Rica já era curto, porque o país se destaca quase que totalmente pelo ecoturismo, tem vários parques nacionais pra quem gosta de ver planta e bichinho (pra mim já basta o globo repórter com esses temas mais ecológicos) e por isto não estive muitos dias no país.
A minha ida para a Península de Nicoya era mesmo pra dar uma pausa na correria da viagem e surfar por 2 dias ali, onde há boas ondas (outra fama do país, mas essa é boa). Direitas e esquerdas longas quebram na boca do rio e o surf com o pôr do sol ali é espetacular.
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Tamarindo
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Tamarindo
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A história da Costa Rica é mais simples e menos conturbada que a dos seus vizinhos centro-americanos. Isso se deve ao fato que desde o período colonial, esta região nunca teve muito peso em se tratando de rotas comercias importantes, e assim esteve longe das zonas de conflitos pela disputa de riquezas. Por isso, a economia estabeleceu-se baseada em cultivos de subsistência e quase não houve muita escravidão, o que permitiu o desenvolvimento de uma camada de classe média significativa. Sem ter muito pelo que lutar e afastado das zonas de conflito que afetavam os vizinhos, o país aboliu seu exército há muito tempo e também esteve livre de longas ditaduras. A Costa Rica tem uma história democrática bem mais sólida que os demais países da região. Oscar Arias, atual presidente que também já havia governado o país nos anos 80, é conhecido por ter recebido o Prêmio Nobel da Paz e pelos esforços de mediação de conflitos entre os países centro-americanos.
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Toda esta trajetória gera um pouco, mas nada exagerado, de sentimento de superioridade dos Ticos sobre seus vizinhos (Tico é o apelido pelo qual os costariquenhos se auto-denominam). Porém, mesmo com toda esta diferença histórica, o país ainda tem muita pobreza e mais de 20% da população está abaixo da linha de pobreza, embora ainda assim tenha os melhores níveis de padrão de vida na região.
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Devido à esta grande influência externa recente que o país vive, os ticos e ticas, principalmente os da capital, parecem estar mais interessados na aparência e no consumo do que em qualquer outra coisa. Por tudo isso, vi a Costa rica como o país menos autêntico da região e talvez a única parte de cultura pura e genuína que resta esteja na parte da costa do Caribe, principalmente em Puerto Limón e Talamanca. Estes lugares são habitados por negros que falam inglês, espanhol e dialetos creoles e o som ali é o calypso, a salsa e o reggae. Aliás, descobri um grupo de tiozinhos que tocam calypso que é sensacional, um achado! Eu nunca tinha escutado exatamente o autêntico calypso. O negócio é demais, percussão forte, banjo e um tipo de baixo de uma corda que faz a marcação. Infelizmente não pude estar por estes lugares da costa do Caribe da Costa Rica porque ficava muito fora de mão e ia tomar muito tempo. Aliás, a parte que me surpreendeu no país e que gostei muito foi a música, isso devido ao trabalho de alguns músicos que estão resgatando os ritmos tradicionais no corpo da música contemporânea.
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Grupo de Calypso em San José
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Bom, depois do descansinho em Tamarindo, já estava na hora de voltar pra poeira e seguir a rota. Peguei um ônibus pra capital, San José, e veio lotado de pedreiros, justamente os que estão construindo os resorts americanos em Tamarindo. Bastou 15 minutos de viagem pra já descobrirem que eu era do Brasil, aí começou a festa: ahh, y los carnavales? y las mujeres? y Ronaldiño?
Depois, o pedreiro que estava sentado do meu lado começou a fazer uma bateria de perguntas onde saíram várias pérolas. Ele olhou na janela e viu uma fazenda de gado, me vira e pergunta:
Pedreiro: -lá no Brasil também tem vaca?
Eu: -tem, bastante.
Pedreiro: -ahhh, e são iguais as daqui?
Eu: -sim, só muda o idioma.
(ele nao entendeu a piada e ficou pensando)
Depois a gente comentou que San José não era tão quente quanto Tamarindo e eu falei:
-sim, é porque San José é bem alto né? (detalhe: San José está a 1.500 metros sobre o nível do mar, e Tamarindo está no litoral)
e ele me manda essa:
-não!!! Tamarindo é mais alto!
E ele insistiu tanto que eu tive que concordar que a praia de Tamarindo é mais alta em relação a San José, aí ele sossegou.
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Depois de horas na companhia dos amigos pedreiros, cheguei a San José. A cidade é limpa, organizada e nada caótica como as outras capitais centro-americanas. Fiquei num albergue que foi uma babel incrível: três indianos, uma israelense, um mexicano, um alemão, um inglês, um filipino e eu. Fora que o lugar era administrado por colombianos. Um dos indianos era metido a gurú e saía lendo a mão de todo mundo.
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San José
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Mercado Central - San José
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Mercado Central
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Mercado Central
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Um bom lugar pra ir em San José é o mercado central, fundado em 1880. Frutas, verduras, carnes, roupas e bugigangas de todo tipo por lá e os donos das bancas gritando pra disputar a clientela.
No sábado e no domingo estava rolando um festival na maior praça da cidade. Ali, mendigos sorridentes, velhinhas sem dente e tiozinhos de sapato bicolor, bigodinho fino, camisa florida e cabelo lambido dividiam o espaço democraticamente e dançavam na maior descontração. Esses tiozinhos produzidos no melhor estilo latin lover salsero estavam arrepiando com as velhotas, requebradas incríveis cheias de estilo que me fizeram valer a tarde.
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O Latin Lover
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Depois de 1 mês e meio por estes lugares, já se fazia necessário dar um tapa na peruca e tratar do asseio pessoal, por isso, fui cortar o cabelo e dar uma aparada da barba, que já estava quase natalina, justamente porque não acho nenhuma tomada compatível com meu barbeador e também não fui atrás de adaptador. Cortar o cabelo fora do Brasil é engraçado, eles ficam explicando todos os modelos de corte disponíveis e eu fico repetindo mil vezes que só quero que passe a máquina. Mas o capricho foi incrível, ficou um tempão aparando aqui, retocando ali. Eu nem vi direito como ficou atrás, mas rejeitei todos os modelos de acabamentos exóticos que me ofereceram pra nuca, com estilo pontudo, estilo garfo e vários outros que nem entendi.
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Salseando
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Bem, de cabelo cortado, barba aparada e um sorriso na cara, enfrento amanhã mais várias horas de viagem e mais uma fronteira. Que venha o Panamá!
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Até breve, saudações!
Márcio.-

Boletim 6: Panamá



Boletim 6: Panamá


Ciudad de Panamá, 18 de Março de 2007
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E segue a barca:
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De San José, rumei pro Panamá numa viagem de 17 horas, mas finalmente num ônibus direto e que não era escolar. Cheguei na fronteira às 5 da manhã depois de viajar por toda a madrugada e o escritório de migração só abre as 6 da manhã. Depois de tomar café da manhã num estabelecimento totalmente desqualificado, com posters gigantes do Mao Tsé Tung e com uma chinesa de quase 2 metros atendendo no balcão, entrei na fila pra carimbar a saída da Costa Rica. Depois atravessei a pé os poucos metros que separam os países e as aduanas e entrei na fila pra estampar a entrada no Panamá. A entrada no país estava cheia de mistérios, quando eu fui comprar a passagem ainda em San José não me disseram nada, mas como eu sempre pergunto, descobri que pra entrar no Panamá me exigiriam passagem de saída do país. Pra mim era impossível porque eu só saberia a forma que iria sair do Panamá quando eu chegasse na Cidade do Panamá. No entanto, tinha minha passagem de volta pro Brasil, mas é saindo da Venezuela, o que não serviria. A saída seria comprar uma passagem de volta pra Costa Rica ali mesmo na fronteira e não utilizá-la, mas pelo menos era uma passagem que comprovaria uma via de saída do Panamá.
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Antes de comprar a passagem que não me serviria pra nada, pois não iria voltar pra Costa Rica, resolvi tentar entrar no país dando uma de migué, torcendo pra não me pedirem nada, já que isso é sempre aleatório. Chegada minha vez na fila, entrego o passaporte, a ficha de entrada e o cara me diz: passagem de saída?
Num lindo Migué (agora com maiúscula), entreguei minha passagem Caracas - SP (detalhe que era o e-mail da reserva impresso, não era nem o bilhete aéreo). O cara olhou, olhou de novo, colocou de lado, baixou um pouquinho os óculos, forçou a vista, olhou pra minha cara e baixou o porrete do carimbo de entrada estampando meu passaporte, já tava dentro! O Panamá é nosso!!!!
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Ponte das Américas (sobre o canal do Panamá)
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Mas não bastava o carimbo, faltava a revista na bagagem e continuei no sistema de me camuflar entre os gringos. Esse sistema é uma espécie de mimetismo racial aduaneiro, e dá certo. Enquanto isso, os nicas e ticos são revirados até na meia do tênis, sacanagem.
Da fronteira até a capital foram mais algumas longas horas. A Cidade do Panamá é moderna, cosmopolita, cheia de prédios altíssimos com vidros espelhados, modelos de carros importados que eu nunca vi na vida, ou seja, é totalmente distinta dos outros lugares pelos quais já passei até aqui. Parece até uma Miami latina, se bem que Miami já está mais latina que outra coisa.
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Cidade do Panamá
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Cidade do Panamá
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Sem dúvida, toda essa diferença em relação aos outros países está ligada ao fato do país abrigar o canal, que ficou pronto em 1903, numa das mais difíceis obras de engenharia do mundo e até hoje de fundamental importância. Devido ao canal, o Panamá recebeu imigrantes de várias partes do mundo, que vieram trabalhar em sua construção e, assim, a cidade concentra várias culturas diferentes, além de ser um ponto mundial de confluência de pessoas e mercadorias.
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Eclusa de Miraflores - Canal do Panamá
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Os EUA tiveram posse sobre o canal desde 1903 até 1999, quando então finalmente o Panamá assumiu o controle, o que passou a gerar muito dinheiro, pois a média do valor que se paga para utilizar a estrutura do canal de um oceano ao outro é de 150 mil dólares por navio!!! sendo que o canal funciona 24 horas e sempre há navios passando (vai fazendo as contas....). Por isso essa explosão de riqueza e modernidade na capital em tão pouco tempo, sem falar na lavagem de dinheiro e o contrabando pesado que também ajudaram a levantar muitos destes prédios aqui.
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Navio porta-container no canal
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Eu fui até o canal e vi o funcionamento das eclusas, que é o sistema de comportas que igualam o nível das águas para os navios passarem. As comportas gigantes são originais de 1903 e um navio leva em média 8 horas para atravessar toda extensão e passar por todas as eclusas, porém, se fosse contornar o oceano lá pelo estreito de Magalhães demoraria dias, sem contar que o mar naquela região é bem complicado. Tendo isso em consideração, o pedágio de milhares de dólares e as 8 horinhas valem o cachê.
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Estudantes em Casco Viejo
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Praça França - Casco Viejo
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A melhor parte da cidade é o bairro antigo de Casco Viejo, que fica numa pequena península na saída da cidade de cara ao Pacífico. As construções antigas, que em sua maioria ainda abrigam famílias que perduram desde aquela época, possuem terraços onde ficam penduradas as roupas e onde os moradores passam a tarde conversando entre uma varanda e outra. Os demais prédios viraram embaixadas, ministérios e o palácio presidencial também fica ali. No entanto, este bairro antigo, não foi a primeira fixação colonizadora da cidade, mas sim em outro lugar, onde agora só sobram as ruínas do que se chama de Panamá Viejo. A cidade foi destruída pelo famoso pirata Henry Morgan, que saqueou e quebrou tudo por ali. Corre a fofoca histórica, que no momento do saque, Morgan ia roubar um grande altar de ouro maciço e o padre, que já previa o saque, pintou o altar de preto e disse a Morgan que este não era o original, mas sim uma réplica porque o primeiro já havia sido roubado num outro ataque de piratas. Morgan deu risada e teria dito ao padre: "não sei porque, mas acho que o senhor tem muito mais de pirata do que eu", e foi embora.
Malandro o padreco hein! depois ele deve ter jogado um thinnerzinho no altar pra tirar a tinta e deve ter vendido a relíquia.
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Casco Viejo
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Casco Viejo
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Casco Viejo
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A capital está no melhor estilo "sou novo rico, e daí?", e por isso se notam muitos contrastes, porque supostamente a grana que sai do canal e dos trambiques gerais nunca chegará a toda população. Por isso, passam executivos de gravata fechados em BMWs, que no lustro de suas pinturas metálicas, refletem a barba e a cabeleira suja dos desvalidos da rua.
O transporte urbano coletivo ainda é todo feito através dos ônibus escolares, sempre coloridões, cheios de enfeites e tocando salsa no talo! Os panamenhos estão sempre de bem com a vida, e nos ônibus tem sempre um negão lá atrás que puxa o refrão da salsa, e o condutor lá na frente faz a discotecagem, dirige, cobra e ainda rola uma manivela gigante pra abrir e fechar a porta do coletivo. Passagem a 0,25 balboas. Como pode valer tão pouco tamanha diversão?
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Catedral - Casco Viejo
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Casco Viejo
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Casco Viejo
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Outra coisa estranha aqui é a moeda, que se chama Balboa, mas é simplesmente dólar americano! Antigamente eles tinham essa moeda chamada Balboa, mas depois atrelaram paridade ao dólar e as notas de Balboa sumiram. O único que vale de Balboa são as moedinhas. Então, ao perguntar o preço de algo te dizem: 10 balboas, mas você dá 10 dólares.
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Museu de História do Panamá (esq.) e ruas de Casco Viejo (dir.)
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O Panamá é assim, maluco, alegre, rico, pobre, índio, negro, branco, mestiço, chinês, indiano, tcheco e americano...
Próximo boletim: Colômbia
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Casco Viejo
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3 irmãos panamenhos
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Até breve, saudações!
Márcio.-

Boletim 7: Colômbia



Boletim 6: Colômbia


Santa Fé de Bogotá, 31 de Março de 2007
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Falou em Colômbia pensou em...

narcotráfico, guerrilha, Farc, Cartel de Medellín, Cartel de Cáli, atentados, sequestros, o gangster latino Pablo Escobar, a cabeleira encantada do Walderrama, o goleiro acrobata Higuita, Shakira e Juanes.
Ok ok, o país tem todas estas atrações, mas vamos com calma! Quero mostrar o lado B da Colômbia neste boletim inédito, que será o penúltimo desta viagem.
A primeira dificuldade começou ainda antes de entrar no país. Isso porque não há ligação terrestre entre o Panamá e a Colômbia, ou seja, no final do istmo panamenho, que é conhecido como região de Darién, não há estradas que passem pras terras colombianas e toda essa região é dominada pela guerrilha. Então sobram 2 opções pra chegar: água ou ar. Minha idéia era tentar ir pelo mar e, ainda na Cidade do Panamá, decidi buscar um veleiro que fizesse a travessia até a Colômbia, porém, há poucos barcos fazendo este trajeto porque nesta época o mar fica muito agitado. Os próximos barcos sairiam em aproximadamente 15 dias e mesmo assim dependendo das condições do mar. Como eu não tenho parentes no Panamá pra me hospedar por tanto tempo, tentei ver outra opção através de navios de carga que eventualmente levam gente. Nesta opção, mais arriscada, eu teria que ir pro porto de Colón, do lado do Atlântico e esperar um cargueiro pra Colômbia, e isso poderia levar muitos dias. Fora o tempo de viagem, tem o fato de que alguns destes navios viajam carregados mesmo é de contrabando e drogas.
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Cartaz do 47° Festival de Cinema de Cartagena
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Sem terra, sem mar e sem vontade de ficar morando no Panamá, a solução era voar. Consegui uma avioneta bimotor (aquelas de hélice) que voaria pro interior da Colômbia, mas antes faria uma escala em Cartagena, perfeito!
A tremedeira e o barulho que o troço fazia na pista antes mesmo de decolar me fizeram pensar duas vezes, mas eu já estava dentro e foi que foi. Meus companheiros de vôo eram dois colombianos suspeitos levando caixas de papelão, um espanhol maluco e, pra completar o ambiente familiar, uma colombiana com mais caixas.
Em pouco mais de uma hora o aviãozinho estava pousando em Cartagena de Índias, já na Colômbia. Cheguei quase que simultaneamente ao Bill Gates. Não sei exatamente o que o bilhonário míope veio fazer na cidade, imagino que veio para doar uma parte de sua extensa fortuna em algum projeto, ou seja, veio fazer um social. A vinda deste senhor proporcionou um caos na cidade. Havia um esquema de segurança fortíssimo por toda parte, helicópteros e um monte de soldados armados até os dentes. Pelo menos eu aproveitei toda essa cobertura pra ir do aeroporto até a cidade.
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La Colombiana!
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Cartagena
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Cartagena é uma das cidades mais bonitas que eu já vi. O centro histórico está todo protegido por uma muralha que rodeia toda esta parte, por isso é conhecida como "la ciudad amurallada". Estou tentando angariar adjetivos pra definir Cartagena, mas acho que somente estando lá pra ter uma noção mais exata. O casario colonial é muito bem conservado, as casas têm grandes terraços de madeira e são pintadas em cores claras, nas esquinas as placas com os nomes das ruas escritos são de azulejo e uma grande torre com um relógio e um arco separam a entrada principal da parte interior da muralha. A sensação de volta no tempo fica muito presente quando se está na parte de dentro das muralhas, pois não é como em algumas outras cidades coloniais onde a arquitetura acaba se misturando um pouco, aqui o que está dentro da muralha é totalmente original, sem nenhuma influência moderna.
Os colombianos de lá são mais relaxados, o tom caribenho comanda o ritmo da cidade e o compasso da salsa e do vallenato é a única coisa que anda mais rápido.
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Igreja de San Pedro Claver - Cartagena
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Cartagena
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Cartagena
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Cartagena era um importante porto desde a época da conquista espanhola por onde escoava-se muito da riqueza da América em direção à Europa. Por isso, sempre foi alvo de ataques de piratas e de outros países europeus, mas a construção das muralhas fez com que estes ataques não tivessem o mesmo sucesso.
Aliás, Cartagena foi também a porta de entrada para o início da colonização do território da Colômbia. Anos mais tarde foi fundada Bogotá, que tornou-se o centro da colônia de Nova Granada, formada por Colômbia e partes dos territórios da Venezuela, Equador e Panamá. Após a independência, estes países viveram unificados sob o nome de Grã-Colômbia, e tinham Simón Bolívar como presidente. Em 1830 Bolívar é deposto e os territórios começam a se perfilar conforme a distribuição de países que existe atualmente.
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Ônibus (esq.) e partida de dominó entre nativos (dir.) - Cartagena
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Torre da Catedral de Cartagena
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Muralha cercando a cidade (esq.) e comércio de rua (dir.)
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Até então, a Colômbia era um país semelhante aos demais da região mas, na década de 60 entraria num abismo, onde permaneceria por muitos anos. Nesta década aconteceram vários conflitos civis e golpes de Estado, motivados por disputas políticas entre liberais e conservadores. À margem de tudo isso estava o Partido Comunista que, por estar excluído das disputas, forma um braço armado. Nascem aí as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Em reação aos atos de guerrilha pelas Farc, surgem os esquadrões paramilitares de extrema direita e a violência explode com muitos sequestros e atentados. Em busca de proteção, os narcotraficantes associam-se às Farc e passam a financiar a guerrilha, os cartéis se desenvolvem e Pablo Escobar vira uma celebridade do tráfico, tocando o terror na Colômbia. Nessa época, a guerrilha chegou a controlar 40% do território do país por muitos anos! Era praticamente outro país dentro da Colômbia!
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Exército na rua
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A partir dessa mesma década iniciam-se os processos de combate ao narcotráfico e a negociação de um processo de paz, mas mesmo assim a violência continuou forte e somente desde 2002 a situação veio melhorando pouco a pouco, quando o atual presidente reeleito Álvaro Uribe ganha seu primeiro mandato. Uribe foi rígido, mas ao mesmo tempo muito cauteloso ao conduzir todo o processo, e hoje o país encontra-se numa situação bem melhor. A guerrilha está numa região mais afastada das principais cidades, mas mesmo assim ainda há muitos focos de combate e uma grande quantidade de pessoas sequestradas pelas Farc.
Do jeito que a América do Sul anda mal em se tratando de governantes, acho que o Uribe é o presidente mais sério e pragmático, ao contrário dos seus colegas mais famosos como o alegórico e fanfarrão Hugo Chávez (aí vem ele no próximo boletim!)
Portanto, depois desta pequena trégua em que os colombianos estão podendo respirar um pouco, dá pra notar um povo simples e simpático, que apenas gostaria de viver num país mais tranquilo e não ter uma má fama tão grande no exterior e, de fato, se não fosse por todos esses problemas, a Colômbia poderia ter uma grande reputação, pelo seu povo e pelo seu país rico e diverso em cultura, natureza e história.
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Portal de Los Dulces - Cartagena
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Voltando ao roteiro, de Cartagena rumei pra Medellín, e na rodoviária descobri um belo migué colombiano na hora de comprar a passagem. É o seguinte: as empresas de ônibus têm seus guichês todos bem organizados, com atendentes credenciados e todos de gravatinha, aliás, os ônibus por aqui são até luxuosos, razoavelmente modernos, com banheiro e poltronas que reclinam quase inteiras. Uma mudança incrível para quem veio descendo 5 países da América Central em ônibus escolares e vans de cachorro quente. Mas vamos ao truque: você chega no guichê e humildemente pergunta o preço da passagem, o cara te responde e você já emenda um pedido de desconto que na hora o cara já rebate um preço menor, daí ainda tem mais duas choradas de margem pra negociar e no final dá pra sair quase pela metade do preço. Sem nenhum tipo de carteirinha mesmo, é tudo no papo.
Medellín fica num nível médio de altitude durante a subida dos Andes colombianos. A cidade fica num vale escorado por favelas, mas por outro lado possui uma série de bairros de classe média e também nobres. Todos os prédios são feitos de tijolinho aparente e têm uma arquitetura muito legal. As ruas são arborizadas e mesclam casas e prédios residenciais com pequenos comércios como boutiques, bares e restaurantes com mesas na calçada. Também há várias praças e um ótimo sistema de metrô. A parte central, mais movimentada e confusa, concentra os museus e a praça mais interessante da cidade, onde há várias esculturas do Botero em tamanho gigante. Aliás, Botero nasceu em Medellín.
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Escultura de Botero - Medellín
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Placa de Medellín (esq.) e prédio da Biblioteca Municipal (dir.)
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Escultura de Botero - Medellín
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Os habitantes do estado de Antióquia, onde se localiza a cidade de Medellín, são chamados de "paisas" e diferem bastante dos habitantes da costa, são mais claros e mais reservados.
Andando pelo bairro boêmio da cidade, onde estão concentrados os bares e restaurantes, inusitadamente dou de cara com 3 figurinhas em plena badalação na noite paisa: Aécio Neves, Sérgio Cabral e José Roberto Arruda. Pra quem não lembra deste último, é aquele careca que estraçalhou o sigilo do painel de votação do Senado junto com o ACM. Hoje ele é governador do DF.
Eles estavam em Medellín participando de encontros com políticos locais para aprender as técnicas de redução de violência urbana que foram usadas na Colômbia com sucesso. Mas eles também aproveitaram pra conferir o burburinho noturno colombiano, haha... e o whiskinho da balada estava por conta do contribuinte!
De Medellín subi um pouco mais os Andes até um tradicional povoado paisa, uma pequena cidadezinha colonial parada no tempo chamada Santa Fé de Antióquia. É o lado mais rural da Colômbia, com tiozinhos andando de chapéu nas ruazinhas de pedra e senhoras vendendo doces feitos de tamarindo e arequepe na praça da vila.
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Igreja do povoado de Santa Fé de Antióquia
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Casa colonial (esq.) e nativos na praça (dir.) - Sta. Fé de Antióquia
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Dalí rumei pra Bogotá, em mais uma longa viagem de ônibus. Todas as viagens pela Colômbia são demoradas pelo fato de as estradas acompanharem a subida dos Andes e também porque o exército faz um controle rígido no caminho. Aliás, nas rodoviárias por exemplo, é preciso passar por detectores e ser revistado antes de entrar. Foi possível ver a presença do exército em várias partes do país.
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Vendedora de doces típicos de Sta. Fé de Antióquia
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Chegada a Sta. Fé de Antióquia
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Bogotá é uma das melhores capitais sul-americanas, consegue ser cosmopolita preservando um ar provinciano, embora tenha 7 milhões de habitantes. O bairro histórico de "La Candelária", em pleno centro da cidade, com ruas estreitas e casas coloniais, parece um povoado distante de qualquer grande cidade. Ali há vários cinemas, teatros, museus, galerias, bibliotecas, centros culturais e cafés. Os museus mais importantes da região são o do Ouro, que mostra toda a trajetória de exploração aurífera na Colômbia, desde a época pré-colombiana como adorno para os grupos indígenas, até a exploração mercantilista pela Coroa Espanhola e o Museu Botero, com pinturas e esculturas do artista paisa.
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Catedral Metropolitana de Bogotá
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Capitólio Nacional - Bogotá
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É também em "La Candelária" que fica a sede dos poderes da república colombiana, os imponentes prédios do Senado e o Palácio Presidencial, com um esquema de segurança bem forte. As ruas ao seu redor são fechadas para o trânsito de carros e soldados armados de metralhadora rodeiam os prédios públicos. Os carros oficiais que chegam são revistados até com detector de explosivos que passam por baixo, além de abrirem capô e porta-malas. Fotos por ali nem pensar, quando eu tirei uma foto do Palácio fui reprimido por um estafeta que me fez apagar o humilde retrato.
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La Candelária - Bogotá
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Calle de Las Margaritas - La Candelária, Bogotá
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Um dos limites da cidade é o "Cerro Montserrat", uma montanha próxima ao centro onde se sobe num bondinho para avistar toda a cidade. Bogotá já está a 2.700 metros e no topo do Montserrat chega-se a 3 mil e cacetada. O clima meio nublado não ajuda mas também não estraga a ótima visão da cidade, e dá pra perceber que apesar de ser uma capital bem grande, há poucos prédios.
Depois de já estar no sétimo país da viagem, finalmente encontrei com outros brasileiros. Era um grande grupo de geógrafos que estavam lá por causa de um congresso na universidade. Estávamos todos no mesmo albergue e acabamos virando uma colônia por lá e eu fui praticamente adotado pelo grupo e recebi o título de geógrafo honorário. Agora que já estão recebendo os boletins, aproveito pra mandar saudações aos novos amigos e amigas!
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La Candelária - Bogotá
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Viajando pela Colômbia, durante estas duas semanas, vi um país que não merece ser posto de lado.
Um lugar que consegue reunir no mesmo território, um pouco de cada coisa de toda a América Latina: é um país caribenho, mas também andino e amazônico.
Vi também um exemplo de perseverança na vida dos colombianos, que estão lutando com muita firmeza para levantarem seu país, e além de estarem conseguindo, já estão dando exemplo pra outros países, inclusive ao nosso.
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Quadro de Botero - Museu Botero, Bogotá
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Saudações!
Márcio.-